22 de abril de 2019 às 1:29

Tradição da queima de Judas resiste ao tempo e ainda acontece em Vitória da Conquista

Em brincadeira de amigos, ‘Judas’ recebeu o nome de Vitório, organizador do evento (Fotos do colaborador João Araújo)

Uma tradição antiga trazida ao Brasil pelos portugueses resiste ao tempo e ainda acontece em Vitória da Conquista. A Malhação ou Queima do Judas é uma manifestação cultural realizada na Semana Santa entre o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa. Faz alusão à traição do apóstolo Judas Iscariotes a Cristo. Durante o evento, o organizador faz a leitura de versos críticos e jocosos sobre os acontecimentos pitorescos da cidade, e também lê o famoso “testamento de Judas”.

Bonecos foi queimado sob aplausos dos presentes

Mas essa cultura popular que atraia milhares de pessoas está acabando. De um lado, há quem considere malhar o Judas uma violência; de outro, era uma cultura forte e presente nos meios populares, em especial nas regiões metropolitanas, onde hoje um número expressivo de pessoas virou evangélico, e as expressões culturais do catolicismo popular vão minguando.

É fato que Judas ou se enforcou (Mateus 27:5) ou se jogou de um barranco e se partiu ao meio (Atos 1:18). Escrevi que “malhar ou queimar o Judas no Sábado de Aleluia é, simbolicamente, agir à margem da Justiça oficial, o conhecido ‘fazer justiça com as mãos’: justiçar um traidor sem direito de defesa, motivo pelo qual muita gente é contra a tradição de origem católica e ortodoxa, trazida para a América Latina por espanhóis e portugueses. Justiçamento é uma coisa, e justiça é outra.

“No Brasil, está perdido no tempo o início do costume de julgar, condenar e executar o traidor de Cristo após a leitura do seu testamento, cujo conteúdo satírico é sobre a vida de alguma figura pública real ou salpicado de tiradas humorísticas sobre pessoas de destaque na vida local (bairro ou município), estadual ou nacional. Nada a ver com Judas Iscariotes, aquele que vendeu Cristo por 30 dinheiros.

“A criatividade brasileira transformou a malhação de Judas em uma sátira sobre amigos e vizinhos e/ou sátira política, razão pela qual a ditadura militar de 1964 vigiava as malhações para não permitir que personagens do ou a serviço do regime militar fossem alvo de chacota. Em alguns lugares, era preciso ‘tirar autorização na polícia’ para o evento, só concedida mediante a apresentação do testamento!”

Em Vitória da Conquista, terceira maior cidade da Bahia, a malhação de Judas ainda acontece, mas não com a mesma intensidade de antes, quando em praticamente todos os bairros da cidade se via , no Sábado de Aleluia, um boneco sendo incendiado sob aplausos e gritos da população, tipo: traidor, vagabundo, safado. Neste sábado, 20, houve queima de Judas no Bar Canto do Sabiá. O boneco ilustrava a imagem do presidente Jair Bolsonaro. 

Na Rua Rio de Janeiro com a Rua da Gávea , Bairro Cidade Maravilhosa, também houve a queima de Judas, apelidado de Vitório, organizador do evento e dono de um bar localizado nesta rua. A população aplaudiu o momento em que o fogo se alastrou pelo corpo do boneco. //Com informações da coluna de Fátima Oliveira/O Tempo

 

 



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