4 de setembro de 2015 às 13:34

COLUNA: O fechamento da ‘Canal 3’ representa muito mais que o fim de um negócio

gabriel2POR GABRIEL OLIVEIRA

Detentora de um dos mais respeitáveis acervos cinematográficos da Bahia, a Vídeo/DVD Locadora Canal 3 encerra suas atividades. Como disse, em nota oficial, Denise Flores, proprietária do estabelecimento, a Canal 3, principalmente nos últimos anos, foi um alento aos avessos à pirataria e ao compartilhamento ilegal de filmes, ou seja, aos amantes do cinema enquanto arte. De Glauber Rocha a Charles Chaplin, de Quentin Tarantino a Spielberg: todas as fases, meios de reprodução e gêneros cinematográficos ali estiveram representados nos 18 anos de atividade em que se mantiveram “originais, em todos os sentidos da palavra. Era como se fosse um casamento com o nosso cliente: na saúde, na doença, na alegria ou na tristeza, lá estávamos com 100% de acervo com fitas e dvds originais, driblando a pirataria e os downloads caseiros e mantendo-nos fiéis ao nosso desejo pela alta qualidade do serviço e do produto”.

Além de amante do cinema, pude viver o ápice e o declínio das locadoras de vídeo no Brasil, afinal, minha infância e adolescência foram vivida pelos corredores de diversos destes estabelecimentos, tanto é, que por alguns anos, tive em uma delas o meu primeiro emprego. Já observador, podia ver a emoção que era a chegada de um novo vídeo cassete, ou mesmo de um novo DVD, e a interação social que se dava dentro das locadoras, seja entre “famílias recém-formadas, famílias completas, grupos de amigos, colegas de faculdade, casais de namorados, solitários de fim de semana, turma de trabalho e tantos tipos de clientes que muitas vezes nossas histórias se misturam na memória”, como escreveu Denise Flores, era um espetáculo aos meus olhos. Mais que o lucro pelas locações, ver tantas pessoas, de todos os gêneros, cores, religiões e etc., se deslocarem a um local para ver qual seria o enredo que dominaria as emoções de uma sexta ou sábado a noite era uma coisa fantástica, e mais, ser obrigado a ter opinião (ou convencer o cliente que tinha) sobre os milhares de títulos que estavam nas prateleiras era um desafio, afinal, a frase que ouvia era: “que filme você me recomenda?”, era desafiador. E o que a Canal 3 tem a ver com toda essa minha narrativa? Sempre era a referência de qualidade, logística e atendimento a ser seguida.

canal 3Hoje, vive-se uma época em que tirando o celular do bolso se pode interagir com pessoas de todo o mundo. Mas nesse anseio pela informação e pela comunicação rápida, temos deixado de nos comunicar com quem está ao nosso redor. Quem estava atrás do balcão das locadoras via pessoas que, evidentemente, nunca haviam se falado, debatendo sobre o cinema em geral, sobre lançamentos, recomendando filmes e até fazendo amizades. Relacionamentos tiveram sua semente plantada em frente às prateleiras.

A Canal 3, então, assim como a Vídeo Show da Av. Pará (ainda em atividade), se mostram expoentes da valorização do cinema enquanto arte, da comercialização de DVD’s originais na perspectiva do estímulo às novas produções, às inovações, uma contramão à pirataria e aos downloads de péssima qualidade.

É notório que um dos principais problemas da desvalorização, por parte da população, da arte cinematográfica seja a quantidade de impostos colocadas sob a venda dos filmes originais. É óbvio, numa perspectiva de mercado, que a maioria das pessoas irão optar pelo menos oneroso e que fazem o mesmo efeito objetivo, mesmo com menor qualidade. Hoje, o Netflix é um completo sucesso no Brasil, tendo aqui um dos maiores números de assinantes, tendo em vista a sua qualidade no serviço e o custo-benefício. Adivinhem: o serviço ainda não é taxado pela receita. Reclama-se das propagandas nos filmes, mas o “filmesonlinegratis.net” é o preferido de muita gente.

É visível que o principal problema da atualidade é a falta de interação com o mundo que está ao nosso redor. No ônibus, é cada um com seu celular e seu fone de ouvido. Na fila do cinema, é cada um com seu parceiro ou grupo de amigos fechado. Vivemos uma era em que a comunicação é fácil e as informações se propagam com uma rapidez nunca dantes vista, todavia, também vivemos numa época de um completo isolamento coletivo, e os espaços e meios propícios às novas interações estão se esgotando.

Ficam os mais sinceros agradecimentos pelo referencial de qualidade e pelos serviços prestados à cidade. #somostodoscanal3



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