Manoel Carlos: a despedida de um autor que ensinou o Brasil a sentir
A dramaturgia brasileira amanheceu mais silenciosa. Morreu Manoel Carlos, autor que mudou para sempre a forma de contar histórias na televisão e que transformou sentimentos em capítulos, diálogos em espelhos da vida e personagens em parte da nossa memória afetiva.
Manoel Carlos não escrevia apenas novelas. Ele escrevia emoções. Com um estilo único, delicado e ao mesmo tempo ousado, trouxe para a teledramaturgia brasileira um novo jeito de narrar o cotidiano, de olhar para os conflitos humanos e de romantizar a vida real sem tirar dela a sua dor, sua complexidade e sua beleza.
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Foi o criador das inesquecíveis Helenas, mulheres diferentes entre si, mas unidas por uma identidade profundamente brasileira. Cada Helena tinha sua própria história, seus próprios dilemas, sua própria força, mas todas carregavam a assinatura sensível e inconfundível de Maneco. Com elas, ele construiu um retrato plural da mulher brasileira, atravessando gerações e marcando épocas.
Ambientando seus núcleos no Rio de Janeiro, especialmente no Leblon, Manoel Carlos transformou a cidade em personagem. Era um Rio romantizado, desejado, vivo, elegante e ao mesmo tempo cotidiano. Um Rio que o público queria habitar, visitar, viver como se cada esquina pudesse ser cenário de uma de suas histórias.
Ele também nos presenteou com personagens icônicos que jamais serão esquecidos. Laura, Branca Letícia, Raquel, Dóris, Camila… cada uma carregando camadas profundas de humanidade. Raquel, em Mulheres Apaixonadas, escancarou a violência doméstica, o medo, a dor e a luta silenciosa de tantas mulheres vítimas de agressão. Dóris revelou a crueldade cotidiana, o desrespeito aos idosos e a falta de empatia. Camila, com sua leucemia, fez o Brasil chorar, refletir e agir, ao raspar os cabelos em cena, a novela provocou um aumento real no número de doadores de medula óssea no país, provando que a arte também salva vidas.
Manoel Carlos foi irreverente, sensível, ousado. Ele trouxe coragem para tratar temas difíceis, romantizou o cotidiano sem torná-lo superficial e transformou a novela em um espaço de reflexão social, afetiva e cultural.
A dramaturgia brasileira perde um de seus maiores mestres. Como amante das novelas, eu não poderia deixar de reverencia-lo. Mas é importante lembrar que o Brasil ganha a eternidade de suas histórias, que continuarão sendo revistas, lembradas e sentidas por gerações.
Manoel Carlos fará falta. Muita falta.
Mas sua escrita, essa, jamais morrerá.





