Do cabresto ao celular: o voto mudou. E nós?
Uma crônica sobre as eleições de ontem, as campanhas de hoje e a difícil tarefa de escolher em meio a tanta informação
Houve um tempo em que política chegava à porta de casa. Às vezes, chegava montada num cavalo. Outras, vinha acompanhada de um homem importante, daqueles que todos conheciam pelo nome e poucos tinham coragem de contrariar.
E havia também o voto. O voto de cabresto não era uma metáfora distante para muita gente. O Tribunal Superior Eleitoral registra que o eleitor de cabresto era aquele que votava seguindo a determinação de um chefe político ou cabo eleitoral. Em um período em que o voto não era secreto, a possibilidade de pressão e controle era muito maior.
Imagine uma eleição daquele tempo. Não havia celular, internet, grupo de WhatsApp, e muito menos candidato fazendo vídeo todos os dias para explicar o que pretendia fazer. Havia o comício, o santinho, o rádio, a conversa na praça, a visita à casa do eleitor. E havia, em determinados contextos, o poder de quem controlava o emprego, a terra, o transporte, a influência política ou até mesmo a sobrevivência de uma família. A escolha podia ser muito menos escolha do que gostaríamos de imaginar.
Depois, o Brasil foi mudando. O voto secreto ganhou proteção mais efetiva com o Código Eleitoral de 1932, que também criou a Justiça Eleitoral. Vieram novas leis, novas instituições e novas formas de votar. Vieram a televisão, as pesquisas, os debates, o marketing político.
E então apareceu aquela pequena máquina que mudou a rotina do eleitor brasileiro: a urna eletrônica. Ela começou a ser utilizada nas eleições municipais de 1996 e, em 2000, a votação eletrônica já alcançava todos os municípios brasileiros. A cédula ficou para trás.
Mas a história não parou. E então chegou o celular. Hoje, a campanha pode entrar na nossa casa sem bater à porta. Ela aparece enquanto tomamos café… No intervalo do trabalho, durante o almoço, antes de dormir. Está no vídeo que alguém compartilha, na postagem que chega ao grupo da família, na fotografia cuidadosamente produzida, no discurso de poucos segundos. Tudo isso cabe na tela do telefone.
Nas eleições de 2026, a propaganda eleitoral na internet está autorizada desde 16 de agosto, seguindo regras específicas da Justiça Eleitoral. É uma mudança enorme. O eleitor de hoje tem acesso a uma quantidade de informação que o eleitor de décadas atrás provavelmente jamais imaginaria. Pode procurar a história de um candidato, consultar propostas, acompanhar discursos,comparar informações, questionar, discordar. Ou pode simplesmente não acompanhar.
Mas existe uma ironia no meio de toda essa transformação. Nunca tivemos tanta informação ao nosso alcance. E nunca foi tão necessário saber escolher aquilo que merece nossa atenção. Porque liberdade de escolha não significa apenas poder apertar um botão sem que alguém veja. Significa também poder formar a própria opinião. E formar a própria opinião dá trabalho.
É preciso desconfiar do que parece bom demais, verificar antes de compartilhar, ouvir mais de uma versão, conhecer a trajetória de quem pede o voto, separar proposta de promessa, separar informação de propaganda. E lembrar que uma publicação bonita não é necessariamente uma boa proposta, assim como uma pessoa que fala bem diante de uma câmera não necessariamente terá as mesmas qualidades na vida pública. Também é preciso separar 0 que é verdade do que é mentira, entender que acusações sem fundamento são armas de quem não tem proposta.
Talvez esse seja um dos grandes desafios da eleição moderna. No passado, o eleitor podia ser pressionado por quem estava perto. Hoje, pode ser influenciado por aquilo que aparece repetidamente na tela, por notícias falsas que propagadas diversas vezes começam a ser tomadas como verdades. Mudou o instrumento, mudaram as formas, mas a necessidade de consciência continua. Do curral eleitoral ao algoritmo é uma comparação que merece cuidado. O algoritmo não é um coronel, o celular não é um curral eleitoral.
A internet ampliou possibilidades de acesso à informação e participação, mas as ferramentas digitais também criaram novas formas de influência e circulação de conteúdo. Por isso, talvez a grande conquista não esteja apenas na tecnologia da urna. Está no eleitor, na capacidade de dizer: eu vou pesquisar, eu vou ouvir, eu vou pensar, e depois eu decido. Essa frase parece simples, no entanto, ela carrega uma história enorme.
Uma história que passou pelo voto sem segredo, pelas pressões políticas, pela conquista do voto secreto, pela criação da Justiça Eleitoral, pela chegada da urna eletrônica e, agora, pela era das redes sociais. Talvez nossos avós tenham lutado, de diferentes maneiras e em diferentes momentos históricos, para que o voto pudesse ser uma manifestação da vontade do eleitor, sem manipulação, sem mentiras, sem abusos.
Nós recebemos essa conquista e temos a responsabilidade de analisar o discurso, o perfil dos candidatos, a vontade de lutar, o currículo, as propostas, a garra. Precisamos separar o joio do trigo e entender que a nossa escolha define o nosso futuro e o de muitas outras pessoas.
O voto continua sendo nosso. A urna mudou, a campanha mudou, a tecnologia mudou, a política mudou. Porém, uma coisa continua exatamente no lugar: a responsabilidade de cada eleitor diante da própria escolha. E talvez seja essa a verdadeira distância entre o voto de cabresto e o voto livre. Não está apenas na urna, está na consciência de quem vota.






